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18/05/2016

Quebra de safra de milho no Centro-Oeste exige revisão de contratos e gera temores

Muitos produtores de Mato Grosso e Goiás serão forçados a renegociar contratos de venda antecipada com compradores.

Muitos produtores de Mato Grosso e Goiás, dois Estados do Centro-Oeste que tinham previsão de colher cerca de metade da safra de milho brasileira, serão forçados a renegociar contratos de venda antecipada com compradores porque não terão o produto para entregar após uma quebra acentuada da colheita esperada.A avaliação de especialistas do setor foi feita em um cenário de dúvida sobre o que vai acontecer com o mercado semanas antes de começar a colheita da maior safra de milho nacional, que também terá perdas em Estados como Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

No Centro-Oeste, principal região produtora do país, quem especule que alguns agricultores possam eventualmente deixar de cumprir algumas entregas negociadas no passado --ou pela falta do produto ou porque alguns poderiam tentar renegociar com outros o grão previamente vendido, visando maior lucro num mercado de preços altos. Mas o número de "defaults", ainda assim, seria "mínimo", segundo um consultor.Para o analista da Agroconsult Valmir Assarice, haverá uma boa parcela de contratos que terão de ser invariavelmente renegociados devido à falta de produto.

"É o cara que não fez a conta, que vendeu na empolgação um volume acima da capacidade de entregar", afirmou.Ele citou preocupação do mercado em Goiás, onde esteve neste mês realizando levantamentos de colheita da expedição técnica Rally da Safra, organizada pela consultoria.

"A gente está em um momento de insegurança, mas acredito que é mais especulação do momento. Creio que no final das contas o produtor vai cumprir (o contrato), ou entregando o produto ou fazendo uma renegociação", afirmou.Assarice ponderou que seria improvável que um número relevante de produtores pudesse simplesmente descumprir contratos, apesar da quebra de safra, uma vez que os compradores nesse mercado, dominado por tradings internacionais, são poucos.

"Se ele fizer isso (descumprir contrato), ele entraria em uma lista negra do mercado. Ninguém compraria dele no ano que vem", comentou o analista em entrevista à Reuters, que seguirá esta semana juntamente com o Rally da Safra avaliando produtividades de lavouras de Mato Grosso, em direção ao médio-norte do Estado, a principal região produtora.O impasse decorrente da quebra de safra exigiria soluções de acordo com o previsto no contrato.

Alguns contratos com cláusulas mais duras exigem pagamentos pelo milho não entregue mais multas pelo descumprimento do acerto. Outros demandam apenas a multa, segundo o diretor técnico da Aprosoja-MT, Luiz Nery Ribas.Há ainda situações em que, na impossibilidade de honrar o contrato em 2016, o agricultor faria algum acerto para entregar o milho no próximo ano.

VENDA ANTECIPADA

A situação registrada em Goiás também se repete em Mato Grosso, mas com o agravante de os mato-grossenses terem realizado vendas de mais de 63 por cento do milho antes mesmo de a colheita começar, segundo dados do Imea, o instituto de análises ligado à federação de produtores (Famato)."Com a quebra de safra, os 63 por cento podem virar 80", disse o superintendente do Imea, Daniel Latorraca, apontando que o agravamento das perdas teria impacto no índice de comercialização antecipada, uma vez que o número de vendas considera uma safra maior do que a efetivamente será alcançada.

O indicador também uma ideia do tamanho do aperto do mercado, que deve prosseguir com preços elevados.Ainda assim, alguns produtores de Goiás que, na esperança de honrar contratos em meio a perdas, têm buscado "importar" milho de Mato Grosso, onde os valores tradicionalmente são mais baixos comparativamente com outras regiões.

"Tem produtor de Goiás querendo vir aqui, mas não vai ter... ainda tem gente com essa ideia de que vai ter (milho)", disse o gerente de Planejamento da Aprosoja-MT, Cid Sanches, ressaltando que o tempo seco também atingiu fortemente plantações no Estado.O milho de Mato Grosso é cotado nominalmente em torno de 35 reais por saca, três vezes mais que no ano passado.

MENOR EXPORTAÇÃO

Desde que surgiram preocupações com a quebra de safras e com a disparada nos preços, as negociações antecipadas de milho, em sua maioria para exportação, praticamente paralisaram em Mato Grosso, após um avanço forte quando produtores ainda acreditavam que teriam uma grande produção, disse Latorraca, do Imea.Segundo ele, as vendas antecipadas em geral ocorreram a níveis em torno de 19 reais por saca.

O descasamento de preços poderá tornar mais interessante para tradings internacionais vender o milho no mercado interno do que na exportação, o que aliviaria a necessidade de importações para atender a indústria de carnes, disse Sanches, da Aprosoja.O analista da Agroconsult, Assarice, tem opinião na mesma direção. "O nosso cenário é de queda forte na exportação. Porque se a exportação for alta, vai ter que entrar bastante milho de fora. E, neste caso, os Estados Unidos teriam capacidade de suprir", afirmou ele.

Neste cenário, o governo do Brasil, o segundo exportador global de milho, isentou de tarifa uma cota de 1 milhão de toneladas de importação de fora do Mercosul, embora nenhum grande negócio tenha se tornado público até o momento.

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